Torá

A parashá da semana

Comentários às 54 porções da Torá, organizadas por livro. A cada semana se acrescenta uma nova.

O que é uma parashá

“Parashá” (פרשה) significa “seção” ou “porção”. A Torá escrita, os cinco livros de Moshé, está dividida em 54 parashiot, e uma é lida a cada Shabat na sinagoga. Ao fim de um ano a Torá inteira foi lida, e a festa de Simchat Torá marca ao mesmo tempo o fim da última porção e o começo da primeira.

“Parashat” é a forma ligada do hebraico (“a porção de…”), e por isso se diz “parashat Vayerá”. “Parashiot” é o plural. O Talmud já o usa quando ensina que cada pessoa deve completar “suas parashiot” junto com a comunidade (Berachot 8a).

Cada porção toma o nome das primeiras palavras distintivas de seu texto: Bereshit (“no princípio”), Lech Lechá (“vai”), Vayerá (“e apareceu”). Algumas, como Noach, levam o nome do personagem central.

Por que a Torá é lida em público

A leitura pública da Torá já aparece na Bíblia: Neemias 8:1-8 conta que Esdras leu “o livro da Torá de Moshé” diante de todo o povo, enquanto os levitas explicavam seu sentido.

O Talmud (Bava Kamá 82a) explica o ritmo semanal a partir de Êxodo 15:22: “caminharam três dias no deserto e não acharam água”. Os sábios leram “água” como Torá (compare Isaías 55:1, “todos os que têm sede, vinde às águas”) e ensinaram que os profetas estabeleceram que não passassem três dias sem Torá: por isso se lê no Shabat, na segunda e na quinta-feira. Entre as dez disposições que o Talmud atribui a Esdras está a leitura na oração da tarde do Shabat, na segunda e na quinta; segundo a Guemará, Esdras fixou ainda que leiam três pessoas, com dez versículos no total.

A tradição faz remontar a Moshé outro costume: ensinar as leis de cada festa em sua data (Megilá 32a).

Um ciclo de um ano ou de três

O Talmud (Megilá 29b) conhece dois costumes: na Babilônia terminava-se a Torá em um ano, e “os do Ocidente”, isto é, os da Terra de Israel, terminavam-na em três anos. No ciclo trienal cada porção era mais breve e, por isso, as divisões eram mais numerosas.

Com o tempo impôs-se no mundo judaico tradicional o ciclo anual babilônico, que é o seguido hoje pelas comunidades ortodoxas. Algumas comunidades não ortodoxas modernas voltaram a um ciclo trienal, em que a cada ano se lê um terço de cada porção. Aqui não damos uma data para a passagem do ciclo trienal ao anual, porque não a verificamos.

Como se ordenam as 54

A ordem é a do próprio texto, livro por livro: Bereshit tem 12 porções, Shemot 11, Vayikrá 10, Bamidbar 10 e Devarim 11. O ciclo começa com Bereshit no Shabat seguinte a Simchat Torá. A última, Vezot Haberachá, não é lida num Shabat comum: lê-se na própria festa de Simchat Torá, e dali se volta ao princípio.

As porções não coincidem com os capítulos numerados que hoje se usam para citar (Gênesis 18, Êxodo 3…): essa numeração é uma divisão medieval posterior, de origem cristã. As parashiot seguem divisões próprias da tradição judaica, que no rolo da Torá se marcam com espaços em branco (as pausas chamadas petuchot e setumot).

Por que às vezes duas são lidas juntas

O ano judaico nem sempre tem o mesmo número de Shabatot: um ano comum e um ano com mês acrescentado diferem em cerca de quatro semanas. Para chegar sempre a Simchat Torá com a Torá terminada, sete porções podem ser lidas unidas à seguinte: Vayakhel e Pekudei, Tazria e Metzorá, Acharei Mot e Kedoshim, Behar e Bechukotai, Chukat e Balak, Matot e Masei, Nitzavim e Vayelech.

No ano 5787 (2026-27), segundo o calendário do Hebcal para a diáspora, leem-se unidas Chukat e Balak, Matot e Masei, e Nitzavim e Vayelech. Além disso, Israel e a diáspora às vezes ficam defasados uma semana, porque a diáspora celebra um dia a mais de algumas festas.

Algumas comunidades unem as porções de outra maneira: por exemplo, os iemenitas unem Korach com a primeira metade de Chukat, e a segunda metade de Chukat com Balak.

Presas ao calendário

A ordem se combina com o calendário de modo que algumas leituras caem sempre em datas carregadas de sentido: Bamidbar é lida antes de Shavuot, Devarim antes de Tishá BeAv, e Nitzavim (ou Nitzavim e Vayelech) antes de Rosh Hashaná.

O Talmud (Megilá 31b) o explica com um ensinamento de Rabi Shimon ben Elazar: Esdras determinou que as maldições de Levítico (Bechukotai) sejam lidas antes de Shavuot e as de Deuteronômio (Ki Tavó) antes de Rosh Hashaná. A razão, diz Abaye (ou Resh Lakish), é “para que o ano termine com suas maldições”.

Em certos Shabatot acrescenta-se ainda uma leitura especial, ou a leitura da festa substitui a da semana. A Mishná (tratado Megilá) enumera as leituras especiais dos Shabatot anteriores a Pêssach.

A haftará

Depois da leitura da Torá lê-se uma passagem dos Profetas, a haftará, normalmente relacionada com a porção ou com a data. Sua origem é explicada de várias maneiras; uma tradição medieval a vincula a uma época em que foi proibido ler a Torá e se leu em seu lugar um texto profético. Damos isso como tradição, não como fato histórico demonstrado.

Como se estuda durante a semana

O Talmud (Berachot 8a) ensina: “Que o homem complete sempre suas parashiot junto com a comunidade: duas vezes o texto e uma vez o Targum (a tradução aramaica)”. Daí vem o costume de revisar a cada semana a porção em hebraico, com o comentário de Rashi como companheiro habitual, antes do Shabat.

Os quatro níveis de leitura (PaRDeS)

A tradição distingue quatro níveis para ler um mesmo versículo, resumidos pela sigla PaRDeS (פרדס): Peshat (פשט), o sentido simples do texto; Remez (רמז), o insinuado, o que o texto sugere por indícios; Drash (דרש), o sentido interpretado pelos sábios no Talmud e no Midrash; e Sod (סוד), o oculto, o nível da Cabala.

A sigla aparece em autores medievais e não deve ser confundida com o “Pardes” do Talmud (Chaguigá 14b), no qual quatro sábios “entraram”. Neste site cada parashá vai sendo ordenada nesses quatro níveis; os que ainda não estão escritos aparecem como “em breve”.

A parashá na Cabala e no hassidismo

O Zohar comenta a Torá seguindo a ordem das porções, e por isso é citado por parashá (“Zohar, Vayerá”). Várias obras clássicas do hassidismo e da tradição posterior estão organizadas por porções.

Por isso, neste site, cada parashá tem sua própria página, ordenada do simples ao oculto: peshat (resumo), drash (ensinamento dos sábios e aplicação prática) e sod (o Zohar e a sefirá ou o atributo relacionado), com remez quando houver o que dizer.

Obras clássicas ordenadas por parashá

Estas obras, que têm guia neste site, seguem a ordem das porções:

Fontes

  • Neemias 8:1-8; Êxodo 15:22; Isaías 55:1.
  • Talmud da Babilônia: Megilá 29b (os do Ocidente e o ciclo de três anos), Megilá 31b (Esdras e as maldições), Megilá 32a (Moshé e as leis das festas), Bava Kamá 82a (os profetas, Esdras e a leitura de segunda, quinta e Shabat), Berachot 8a (completar as parashiot com a comunidade). Texto aramaico.
  • Mishná, tratado Megilá (leituras especiais).
  • Ciclo anual de leituras da Torá: número de porções por livro, porções unidas e variantes entre comunidades.
  • Calendário de leituras 2026-2028: Hebcal (diáspora).

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